segunda-feira, 22 de maio de 2017

AVIÕES DE PAPEL




Há noites tão pardas
que nem parecem noites

Se as noites sonhadas
fossem mares escancarados
poderíamos em carne viva
respirar uma flor
estremecida
no pestanejar dos olhos

assim
viajantes apócrifos
mais leves que o voo
nesta feira de pássaros
sem pátria nem rosto

como poderemos ver mais longe?

hastear um beijo
no outro lado do cais

ser de novo crianças
e fazer das palavras
aviões de papel

Eufrázio Filipe
Chão de marés - Lua de marfim editora


terça-feira, 16 de maio de 2017

ROSA DE SAL





Neste chão de ressonâncias
marés vivas
marnotos
marinhas valentes
e outros relâmpagos
transportámos
um sol de mãos cheias
à cintura um mar de sargaços

Nus de tudo
soprámos o espinho
que nos sangrava as pétalas

descobrimos as mãos
e os lábios ao entardecer

dulcíssimos
oferecemos ao rio
uma rosa de sal


eufrázio Filipe
Colectânea "Chão de Marés" editora Lua de marfim


quinta-feira, 11 de maio de 2017

" PECADO ORIGINAL ? "



Em sentido lato, todos somos religiosos, políticos, sociais - numa luta por símbolos que alimentam pensamentos, palavras e gestos. 
Os símbolos assumem poderes irracionais em todos os domínios da vida.
Visões que se fossem todas canonizadas revelariam uma miríade de estrêlas a tilintar nos palcos. vergariam ainda mais amplas multidões de inocentes. 
O Papa Francisco de visita a Fátima - aflora por vezes a racionalidade dos símbolos - torna racional a irracionalidade dos símbolos e assim  rasga fronteiras, tenta libertar o "pecado original ", sendo certo que pelo sonho é que vamos. 
Digo eu, no respeito pela diferença. 


terça-feira, 9 de maio de 2017

CHÃO DE MARÉS




A vida também é feita de vagarosos instantes.
No Fórum Cultural do Seixal, o meu Chão de Marés foi partilhado pelas excelentes intervenções da Licínia Quitéria,da Vera Silva,da Maria José Bravo,dos apontamentos musicais da Escola de Artes do Independente Torrense e de tantos outros amigos (Manuel Veiga ,Rogério,Alfredo Monteiro,Joaquim Santos- ex e actual presidentes da Câmara Municipal) .
A todos presentes e ausentes que se manifestaram num abraço inestimável 
- uma flor mais vermelha que os nossos lábios. 

Eufrázio Filipe



quinta-feira, 4 de maio de 2017

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O FULGOR DO PORVIR





Nem o mar sabia
entardecer
numa folha de papel

esculpir em síntese
a tua nudez

nem o mar sabia responder
a tanto azul
nem eu sabia que tardavas
mas chegavas
chegavas chegavas
nunca mais acabavas de chegar
a tempo de plantar
uma árvore
que se desnudasse
folha a folha

nem tu sabias senhora
neste deserto
a sede do entardecer

o fulgor do porvir

Eufrázio Filipe
(a publicar na próxima colectânea)


sexta-feira, 21 de abril de 2017

INACABADA FLOR DE ABRIL






Hoje vi com os meus olhos
uma santa mulher
asfixiar um pássaro
nas mãos
só para desenhar no chão
a dor que sentimos

chamei-a
para deixar nas areias
um beijo côncavo
até a memória arder
os últimos barcos
e as algas discernirem
de olhos abertos
todos os ritmos das marés

chamei-a
para esgrimir contra
a invenção dos destinos
erguer o seu corpo
recolher todos os grânulos disponíveis 

Hoje vi uma mulher amada
esculpida na praia
a despontar nas areias

inacabada flor de Abril

Eufrázio Filipe
(poema a incluir na próxima colectânea)



quarta-feira, 12 de abril de 2017

ACORDES DO MAIO






No limiar dos silêncios
onde o rio corre manso
desvendámos o futuro
a meio da ponte
a jangada que nos move
por sobre as águas

ali mesmo
mãos nas mãos
em pleno voo
crescemos juntos

os cravos vermelhos
começaram a despontar
acordes do Maio
os meus lábios nos teus

eufrázio filipe

quinta-feira, 6 de abril de 2017

NOS LÁBIOS DO VENTO






Quando abrimos as janelas
o mar estava de feição
corria-nos as veias
a falar por gestos
convergia
em quase todas as falas
e as flores despontavam
às mãos cheias
nos lábios do vento

Eufrázio Filipe

quinta-feira, 30 de março de 2017

À PERGUNTA DE OUTROS MARES




Quando foi urgente criar um deus
as uvas ainda não estavam maduras
no corpo das videiras

inocente subiste ao púlpito
das vinhas decepadas

improvisaste um sermão
ergueste o cálice
e a companha exausta aprendeu
que nada é perfeitamente inútil

após as vindimas
bebemos do mesmo vinho

foi quando enfunaste as velas
começaste a despontar relâmpagos
nos mastros mais altos

 afloraste o chão com um beijo
partiste sem destino
por sobre as águas revoltas

à pergunta de outros mares


Eufrázio Filipe
"Chão de Claridades" editora Lua de Marfim

sexta-feira, 24 de março de 2017

SEM CONTORNOS NEM ARESTAS





Nas paredes da casa
onde me deito
nos teus retratos
brotam pedras
em carne viva
sem contornos nem arestas
que se transformam em pão

por elas me ergo
contra todos os destinos
mesmo que ininteligíveis
chovam em flor os teus olhos

Nas paredes da casa
tudo é possível
menos a profanação das metáforas

Eufrázio Filipe

sábado, 18 de março de 2017

PELA VIDA FORA






Estava em desassossego
a despertar o timbre
de outros mares
quando lançaste uma flor para o palco

uma flor vermelha
de lábios doces
que recolhi pétala a pétala

Nunca soube quem és
muito menos do teu jardim

mas sei que me acordaste
pela vida fora


Eufrázio Filipe
"chão de claridades" editora Lua de Marfim

segunda-feira, 13 de março de 2017

A ESSÊNCIA DA LUZ






A noite não dorme
porque se ama
e deseja

inesgotável
desponta vertebrada
move tempestades

às mãos cheias
dá de beber às fontes
a essência da luz

e tantas são as noites
que não dormem
contadas pelos dedos

a desbravar caminhos
conhecidos

Eufrázio Filipe

quarta-feira, 8 de março de 2017

LÁGRIMAS CONTIDAS





Nos dias que se repetem desiguais
derrama-se a água
a chuva cai

fluem lágrimas contidas
no declive dos teus olhos

Eufrázio Filipe

quinta-feira, 2 de março de 2017

CHÃO DE MARÉS





Correm em bando
os teus olhos por cima das searas
descansam no beiral
onde nidificam sonhos
procuram outras moradas
nos mesmos sítios da água corrente

porque nos surpreendemos?

admito a influência dos barcos
nas prateleiras da casa
um forte desejo das pedras
medrarem nas paredes
o reflexo inocente
de relâmpagos azuis
nas infatigáveis metáforas

admito que é preciso transgredir
rasgar o véu de todos os fascínios
para que as papoilas
continuem a crescer por instinto
na palma das nossas mãos

neste chão de marés

eufrázio Filipe

domingo, 26 de fevereiro de 2017

À FLOR DA PELE







A preto e branco
há indícios sítios caminhos
sombras de luz
fugazes apeadeiros
que sempre nos surpreendem

traços de ternura
a movimentar as águas
contra o vento
regressam a casa
de mãos dadas
em bando
reconstroem pontes e afectos

mas são os teus olhos
de pássaro espantado
que dedilham
espaços inteiros
até ser dia
à flor da pele


Eufrázio Filipe


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ATÉ SEMPRE CAMARADA




No lado esquerdo da vida


sábado, 18 de fevereiro de 2017

DESPERTAMOS DE OLHOS FECHADOS





Todos os dias conforme as estações
acordava à hora dos pássaros

escancarava a janela
abria os braços
dava um grito para chamar os cães

descia pedra a pedra
todos os degraus
da minha escarpa
até ao chão das marés

para hastear uma bandeira

enchia um jarro de água
sentava-me à mesa do alpendre
e começava a desenhar
palavras improváveis

Ao fundo
muito para lá da romãzeira
fremiam as águas

não sei porquê
mas fremiam

os cães latiam
e as palavras por uma nesga
espreitavam entre os dedos
como se fosse o fim da história

Neste paraíso
seduzimo-nos pela simplificação dos gestos
e assim eternos
todos os dias despertamos
de olhos fechados

Eufrázio Filipe
(2014 reconstruído)



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A FAZER POEMAS OU QUASE NADA




Observo como se move
a água do meu rio

desprendida
sem mácula nem lágrimas
nua de tudo
passo a passo
olhos nos olhos
militante da vida
e verdades improváveis

com todo o tempo 
para sonhar em voz alta
move-se lenta
esculpe caminhos
muito antes de ser mar

Um dia sonharei
um sonho seu
acordarei uma vez mais

a fazer poemas
ou quase nada


Eufrázio Filipe
2013

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

PÁTRIAS REPARTIDAS


                           



Neste porto desobrigado de fronteiras e outros céus
vem à tona a energia imperecível dos desertos 
o perfil escarpado da luz

Nesta apoteose de neblinas
defino a brancura do teu corpo
de pátria movediça
como um prado de salivas 
onde refulgem transfigurações de barcos
rumores de outros mares

Amo esta janela com vista para o vento
onde é possível ser eterno por um instante
povoar o silêncio errante das metáforas
e viver apaixonado no pulmão das marés

assim voejamos há tanto tempo
de um lado para o outro
na remoção do pó
a construir barcos vertebrados
traços de luz
para os peixes não se afogarem em lágrimas

assim projectados nas paredes da casa
dentro e fora do corpo
peregrinos por sobre as águas
afundámos uma ilha
mas ainda não renascemos
nas belas tempestades

voejamos há tanto tempo nas vagas
que não sabemos se é pó
o desacerto dos relógios
ou pássaros livres quase perfeitos
neste mar de pátrias repartidas


Eufrázio Filipe

( texto reconstruído )


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

TANTA LUZ





Junto ao portão
os cães ladravam
aos outros cães

havia um portão
de faúlhas
e a noite acordava
com pássaros claros

e agora?

neste restolho de latidos
e gestos inacabados
que hei-de fazer
a tanta luz?

que hei-de fazer
quando te deitas
nas escadas do templo
a tecer fios de música

e os cães não se calam?


Eufrázio Filipe
Editora Lua de Marfim


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

MAIS LIVRES QUE OS PÁSSAROS






A letargia dos barcos
surpreende todos os silêncios
neste cais
onde nada é inútil
mas tudo é tão frágil

e nada mais acontece

neste cais
os pássaros em desassossego
banham-se à sombra dos mastros
espantam-se de tanto se olharem
na concha das nossas mãos

e nada mais acontece

até o cais ser um cristal
mais forte que o seu brilho
golpe de asas e seara
contra todos os destinos

Nesse dia
ai nesse dia
de tanto querer voar
nos tornaremos alados
no espelho da água
mais livres que os pássaros


Eufrázio Filipe



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

ARTESÃO DE METÁFORAS





Nas margens do rio
onde habito
respiram pautas desertos
retratos íntimos de flores
a preto e branco

repousam mãos famintas

Nas margens deste rio
quando a noite amanhecida
não dorme
ouvem-se pêndulos vagares
cadenciados
agitam-se os dedos

o tempo ousado dos poetas
que não eu
artesão de metáforas

No fulgor das águas
desprendo-me
a profanar metáforas
para ver mais claro
o teu corpo antigo
baloiçar nas paredes da casa


Eufrázio Filipe
"Chão de claridades" editora Lua de Marfim

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

CONTRA O MEDO




O colossal perigo para o mundo será Trump nacionalista assumir a vertigem do poder pessoal, por cima das instituições dentro e fora do seu país. 
No seu discurso de posse, pato bravo ignorou a Constituição, os direitos humanos e até os seus adversários. 
Populista imprevisível, perigosa criatura, prometeu o descalabro, o crescimento da temperatura e da desordem internacional. 
A menos que um novo David assuma a pedra nas ruas, 
contra o medo. 




terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A MEMÓRIA DAS PEDRAS






No compassado ciclo das marés
à vista dos sereníssimos
moinhos de maré
lá estavam
garças seixos e corvos
tão breves como nós
a inventar destinos
sem âncoras nos sapais

De passagem
para outros azuis
entoamos silêncios
resgatamos barcos
para não perder o rio

beijamos a memória das pedras


Eufrázio Filipe

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

À FLOR DAS ÁGUAS






Nem remos nem passos
mesmo que se movam
numa cadência de gestos

nem palavras navegáveis
a pressa de um beijo

nada é urgente

a menos que se transcendam
a natureza dos barcos
à flor das águas
os desvalidos
no coração dos pássaros


Eufrázio Filipe

sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES CUMPRIU-SE





O Dr. Mário Soares, incontornável figura nacional, marcou o país com as suas convicções. 
Neste momento doloroso, para alguns meus bons amigos, simpatizantes do dr.Mário Soares, 
o meu abraço sem lapelas partidárias. 
Por um instante alguns merecem ser eternos

Mário Soares Cumpriu-se


domingo, 1 de janeiro de 2017

SEDIMENTOS


                                                      
                                                             FOTO DE AUGUSTO CABRITA////Seixal



No regresso à velha casa
respirámos fundo
os barcos ancorados
nas paredes do cais 

lá estavam
numa pauta de sons
silvos e rastos

a desordem organizada

timbres no sossego das marés
a desvendar como se movem
águas e margens

No regresso à velha casa
gratos beijámos as pedras
os sedimentos


Eufrázio Filipe