quarta-feira, 23 de agosto de 2017

MEMÓRIAS À VISTA






Maravilhados
lançamos afectos
para dar sentido aos olhos dos peixes

sem querer
já tínhamos salvo o mundo
várias vezes

e assim vamos
meu amor
nas memórias à vista

mar que se alonga
a apascentar sonhos
paisagens de finisterra
neste povoado
onde só os pássaros
em bando
se julgam livres
por um instante

Eufrázio Filipe

domingo, 13 de agosto de 2017

MARES DESGRENHADOS





Decepei troncos
de árvores frondosas
para ver a serra
sem empecilhos

vi uma pedra 
com vida por dentro
e um poeta improvável
a libertar-lhe o ventre

desenhei um barco
nos teus olhos
e tudo aconteceu ininteligível
contra todos os destinos

Inesperadamente inventei um deus

ao som de Leonard Cohen
acordei uma vez mais
a fazer versos ou quase nada
e tu lá estavas com voz grave
nua de tudo
despida nos meus espelhos preferidos

Foi assim
nesta viagem de latidos ventos e uivos
que te revi apócrifa
no meu espaço

folha ante-folha
senhora das meias pretas

A deshoras no velho cais
dos barcos sonolentos
subi aos mastros mais altos
segredei-te uma breve mensagem

regressei
ao que julgava ser
o meu último desejo

Foi assim
hoje não atearam fogo
às margens do nosso rio

o mar já nos tinha invadido
com bandeiras de cores lúcidas
e no rescaldo de um fósforo
ainda ardiam palavras
por sobre as águas

Sabíamos senhora
que a poesia pode ser
a arte de inventar um pássaro
desenhar numa folha de papel
a dor que sentimos

ousar a salvação do mundo
e voar

decepar troncos de árvores frondosas
para ver a serra
sem empecilhos

os contornos do teu corpo

Na verdade
há silêncios incontidos que se repetem
vozes que se ateiam
na boca das sementes

e foi assim

cheguei
aonde nunca parti

às pátrias repartidas
aos belos mares desgrenhados


Eufrázio Filipe